Entrevista | Doutor Arménio Rego
Entrevista | Doutor Arménio Rego
Entrevista ao Doutor Arménio Rego, autor do livro "Comunicação Pessoal e Organizacional – Teoria e Prática". Entre os temas abordados, nesta obra das Edições Sílabo, estão: leis da comunicação; barreiras à comunicação; comunicação entre pessoas de diferentes culturas; mensagens contraditórias e paradoxais; silêncios e mentiras; comunicação não-verbal; rumores; estilos pessoais de comunicação; escutar e calar; falar em público; facultar e receber feedback dos colaboradores; escrever e clicar.
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Let’sTalkGroup - Dada a importância que assume na comunicação, a que aspetos deve o líder prestar mais atenção para desenvolver a inteligência não-verbal?
Doutor Arménio Rego - Inúmeros aspetos são pertinentes. Sublinharei apenas alguns. Referindo-me apenas à comunicação cara-a-cara, sugiro o seguinte:
• Adote uma postura elegante e mantenha-se com cabeça erguida - denotando confiança, mas sem sobranceria.
• Adote um tomo de voz firme, audível, calmo e entusiasmado.
• Não fale excessivamente depressa, nem excessivamente devagar.
• Cumprimente de modo apropriado.
• Mostre interesse pelo que a pessoa está a dizer-lhe.
• Sorria – mas sem ser engraçadinho.
• Mantenha contacto visual com as pessoas.
• Mostre respeito pela pessoa, mesmo que discorde dela ou a mensagem não seja agradável.
• Fale com as mãos, sem exagero.
• Evite explosões emocionais. Para tal, importa que aprenda a compreender-se a si próprio(a).
Naturalmente, é necessário compreender que os significados associados às mensagens não-verbais diferem consoante as culturas. Exemplos paradigmáticos são as formas de cumprimento, a distância física a manter com os interlocutores, o contacto físico, ou até mesmo o contacto visual. As regras socialmente aceites não são iguais em Portugal, no norte da Europa, ou na Ásia. A inteligência não-verbal requer a compreensão dessas diferenças e a adoção de comportamentos culturalmente ajustados.
Let’sTalkGroup - Que tipo de cultura organizacional pode evitar a ocorrência de comportamentos emocionais mascarados?
Doutor Arménio Rego - As culturas fortes em segurança psicológica são as que mais se compaginam com esse desejo. Diz-me que uma cultura denota elevada segurança psicológica quando as pessoas “podem ser elas mesmas”, pedir ajuda, mostrar desconhecimento, assumir que cometeram um erro, e denotar um “desrespeito saudável” pelos seus chefes – sem que daí avenham riscos para a sua integridade psicológica.
Let’sTalkGroup - Da organização «normal» à «positiva», como podem os gestores facilitar a mudança de paradigma?
Doutor Arménio Rego - Promovendo a segurança psicológica antes referida, “não matando o mensageiro da má notícia”, criando uma cultura onde seja normal assumir riscos, usando os erros (honestos) como oportunidades para a aprendizagem, aproveitando as forças das pessoas e concedendo-lhes a oportunidade de se desenvolverem como profissionais e como pessoas.
Let’sTalkGroup - O Feedback 360 graus acarreta maior número de potenciais vantagens ou riscos?
Doutor Arménio Rego - O feedback 360 graus é uma ferramenta mais apropriada para promover o desenvolvimento pessoal do que para avaliar o desempenho. Mas, mesmo quando usado para efeitos desenvolvimentistas, comporta riscos:
• Os avaliadores podem inibir-se de expor as suas opiniões mais genuínas. A consequência é que a informação resultante não é fidedigna.
• Quando os vários tipos de avaliadores apresentam perspetivas divergentes, os avaliados podem considerar que o sistema não é fiável.
• Nas culturas onde impera o “respeitinho” (como ocorre em muitas organizações portuguesas), os subordinados podem recear retaliações se fizerem avaliações menos favoráveis. Este efeito é reforçado quando as pessoas não acreditam que as respostas são anónimas (mesmo que o sejam!).
As potenciais vantagens são diversas. O avaliado compreende como os seus interlocutores o interpretam, identifica falhas e forças na sua pessoa, e fica mais habilitado a levar a cabo um processo de desenvolvimento pessoal que melhore as suas interações sociais. Todo o desenvolvimento pessoal requer autoconhecimento – e esta ferramenta pode facilitar esse autoconhecimento.
Let’sTalkGroup - Apesar das diferenças comunicacionais entre homens e mulheres, uma vez na liderança acabam por adoptar estilos aproximados?
Doutor Arménio Rego - Depende das pessoas e das culturas organizacionais e nacionais. O que por vezes sucede é que os líderes de cada sexo acabam por adotar comportamentos próximos do estereótipo de género, sob pena de os efeitos serem perversos. Por exemplo, uma mulher que comunique de modo “masculino” pode suscitar reações menos favoráveis nos liderados. Mas outra mulher que não comunique desse modo também pode ser interpretada como “fraca” ou “mole”. Por conseguinte, os efeitos dependem dos interlocutores, do(a) próprio(a) comunicador(a), e do contexto cultural, tanto o organizacional como o nacional.
ARMÉNIO REGO
Doutorado e agregado em gestão. Ensina na Universidade de Aveiro. É autor ou coautor de cerca de quatro dezenas de livros nas áreas da liderança e da gestão de pessoas. Entre os mais recentes estão The virtues of leadership (Oxford University Press) e Liderança: A virtude está no meio (Atual). Publicou meia centena de artigos em revistas como European Management Journal, International Journal of Human Resources Management, Journal of Business Ethics, Journal of Business Research, Journal of Happiness Studies, Leadership Quarterly e Organization Studies. Tem desenvolvido projetos de formação de executivos e de consultoria em liderança e gestão de pessoas. Foi agraciado com diversos prémios, em Portugal e no estrangeiro.
O texto apresentado foi escrito segundo a Nova Ortografia.





